A casa da minha vó…

Foi lá que nasci, cresci e aproveitei longos anos da minha infancia.

Consigo até hoje sentir os cheiros e sons que dela vinham:

  • meu avó chegando do armazem com os bolsos cheios de bala pra mim, sempre escondido no seu casaco pesado,
  • a maquina de costura da minha vó, aquela de pedal. Eu entrava em baixo da saia da maquina, sentava no pedal e passava horas balançando.
  • o pinheiro logo da entrada, pra mim uma das maiores arvores da minha vida. O único impecilho era que ele furava minha bolas.
  • a escada aspera da laje, onde já rolei varias vezes e uma delas ralei o nariz.
  • os vizinhos do fundo, 2 meninos que viamos em pé de guerra.

Era nela que reuniamos toda a família, minha avó foi parideira, teve 8 filhos.

Domingo era dia de macarronada na casa da vó, macarrão com frango, muitas crianças correndo pra la e pra ca, gritos, risadas, choros, molecada.

Gostava do dia do churrasco, asinha de frango….hummmm….nunca mais comi uma tao boa qto aquela. Um dos tios comprava gordura no açougue pra fazer fumaça, segundo ele pra “atiçar os vizinhos”…..e a criançada se acabava de rir,com o tio abanando e espalhando aquela fumaça pelo ar….

A casa vivia sempre cheia, por mais morassemos no mesmo quintal, foi a vó que praticamente me criou.

Daquele jeito dela, calada, onde um gesto dizia mais que mil palavras.

A vó, viuva, evangelica, sentava com seu vestido alinhado, feito por ela, na escada de sua casa, pegava a Biblia, lia salmos, cantava hinos que até hoje sei de cor.

Uma vozinha de cabelos negros, vivia de coque e qdo os lavava, era como um evento pra mim. Pois ela os soltava e deixava seca-los ao sol, mas logo prendia novamente. Usava brilhantina, sinto o cheiro aqui….

Vozinha da mão como a minha, cheia de ruguinhas, passavamos horas sentadas no portão, esperando minha mãe chegar do trabalho e eu ali,  tentando pegar as veias de suas mãos. Ela deixava….

Não tenho grandes recordaçoes gastronomicas, ate pq ela já devia ter cozinhado muito na vida e já devia estar cansada. Mas o seu bule de café com o bico enormeeeee, era usado todas as manhas e tardes para um lanchinho.

A casa da vó era recheada de quadros antigos, ela com meu avó vestidos de Lampeao e Maria Bonita, fotos de filhos, paisagens e uma velha estante com espelhos que faziam a nossa imagem se multiplicar infinitamente. Eu ficava ali, viajando e imaginando se todas aquelas Bárbaras poderiam mesmo existir no mundo.

Sinto o cheiro da mobilia….

Essa casa foi palco de muitas alegrias, muitos casamentos, festas, encontros, mas, infelizmente, tbem foi palco de muitas brigas.

As brigas se tornaram constantes e a casa foi perdendo suas visitas, não era mais possivel encontrar a familia aos domingos, agora as reuniões era marcadas por discordias.

A minha adolescencia passei longe de la, quando voltei, percebi que aquela casa que antes achava enormmmmmeeee, não era tão grande assim, aquele quintal em que eu andava de motoca, era pequeno. Lembro de ter passado um bom  tempo analisando as medidas dela e não acreditava como ela tinha “encolhido”.

Não encolheu somente a casa, mas tbem os moradores, as visitas familiares e as alegrias nela vivida.

No final da vida da vó, já de cama, eu sentava ao seu lado e cantava os hinos evangelicos ( mesmo sendo muçulmana), via a felicidade dela. Um dia errei a letra de um deles, e ela que já não falava a dias, me corrigiu, todos que ali estavam ficaram atônitos. Vozinha, vozinha…..

A vó faleceu dia 25 de janeiro de 2006, 3 dias antes do meu casamento.

Ela que já não conhecia muito as pessoas, foi morrendo aos poucos, talvez de tristeza, de não ter mais aqueles filhos por ali, por ver tanta briga e rancor.

No velorio, lembro de ver a familia reunida. Infelizmente, o velorio passou a ser o local de encontro dos familiares. Ali se via como os primos cresceram, casaram, tiveram filhos, as esposas e os maridos, apenas ali.

A casa virou motivo de discordia, brigas, humilhações, rancores, mentiras e desunião. Por poucos “dinheiros” ela foi vendida, será destruida, e assim caira em ruinas o resto da nossa historia de família.

O proximo encontro será na assinatura dos papeis, depois disso, cada um pro seu lado, sem contato, sem carinho, sem amor.

Penso que o amor dessa família durou o qto essa casa estava em pé. Agora tudo esta por um fio.

Mas ainda sinto saudades da ansiedade de esperar a chegada da família num domingo, para comer macarronada com frango…..

Barbara

Barbara Saleh é mãe, muçulmana e blogueira. Voltou a aprender inglês, está aprendendo a fotografar e iniciou o Portal Uma Mãe das Arábias para dividir com outras mamães tudo o que ela está aprendendo sendo mãe. Contato: barbara@umamaedasarabias.com

16 Comentários

  1. Ai que delícia casa da vó..sinto tanta saudade..amei o post! Bjs

  2. É uma pena esse desfecho… Mas as tradições são feitas por pessoas e você pode seguir o exemplo da sua vó e tornar a sua própria casa um lugar cheio de alegria e que desperte boas lembranças em quem a frequentar.
    Beijo
    Adri

  3. Também fui praticamente mais criada pela avó, que pela mãe, a mãe trabalhava e eu ficava com a vó, e sinto um pouco triste com isso, por que Elena não vai poder aproveitar a casa das avós, da mesma forma que eu pude, pois moramos a 700 e tantos kms! Cada vez que volto lá na casa da vó, fico toda alegra e todas as lembranças voltam na minha cabeça, é onde reunimos a família e eu amo, amo demais tudo isso!
    Espero que o desfecho disso tudo não seja triste da mesma forma como o da sua família!
    Lindo texto, lindas lembranças, mas triste, família deveria ser sempre muito unida!
    Beijos, fique com Deus!

  4. Nossa! Impressionante! Me emocionei muito, pois tudo o que vc escreveu era exatamente assim na casa da minha avó! Nos reuniamos aos domingos tbm, mas cada domingo era um prato diferente: pratos de domingo! Me deu uma saudade da minha avó! Ela faleceu dia 18 de outubro de 98. O velório e os encontros depois, pois a casa tbm virou motivo de discórdia, aconteceram como na sua família… A casa foi vendida e hoje quando passo na rua da minha infância vejo apenas dois portões lindo, grandes e altos. Atrás estão dois sobrados construídos em cima da minha infância…
    Beijos
    Larissa

  5. Assalam waleykum

    Eh mesmo muito triste como uma familia inteira eh capaz de se desunir pela ausencia de uma so pessoa ou por causa do dinheiro.
    No meu caso isso tambem tem acontecido atualmente, nao foi minha avo quem morreu, mas meu avo pelo qual eu tambem fui criada, desde sua morte a familia so vive em discordia principalmente por causa do dinheiro, ja que ele era o provedor de toda a familia e deixou um grande patrimonio.

    No meu caso acredito que a falta de religiosidade da minha familia seja um dos maiores motivos de tanta discordia…

    Eh por isso que temos ensinar bons valores para nossos filhos para que as proximas geracoes sejaam diferentes das nossas

    maa salama

  6. Salaam
    Chorei lendo seu post,me lembrei da minha infância tbm.Tudo o q vc descreveu,sobre a casa parecer pequena,tudo.

  7. Adorei o post, me emocionei com a historia coisa boa deve ser casa de vó. Não conheci nenhuma das minhas avós, quando nasci ambas já havia falecido, mas vejo a farra que o Vinícius faz com as vózinha queridas dele.É uma pena que a união que um dia foi tão presente , tenha se perdido e ainda dado lugar ao interesse material.
    bjs

  8. Que depoimento emocionante, Barbrinha! Um beijo, querida.

  9. Olá!!! Muito prazer, meu nome é Jayza e desde ontem estou lendo todo o seu blog… q é assim demais XD Morri de rir com as gafes… principalmente as do lixo e da ervilha rssssss eram 2 da manhã e minha mãe me perguntando de q q eu tanto rachava o bico kkkkkkk ai ai… Gostei dos seus depoimentos de como são as coisas lá e seu ponto de vista sobre algumas questões, principalmente os relacionamentos de árabes com brasileiras ^^ enfim adorei ADOREI mesmos seu blog!!! Mas eu descobri seu blog pq estava procurando uma coisa q não consigo achar em lugar nenhum =/ será q vc poderia me ajudar?
    Eu recebi um presente do nada de um amigo, um perfume q lá na pros lados do Kuwait (ele é de lá) é extremamente caro, não são como os perfumes daqui sabe? É feito com óleos, vc deve saber do q eu estou falando.. Eu não dei a entender hora nenhuma q queria o perfume, então ele não se sentiu obrigado a me dar (vi isso pesquisando etiqueta, q o anfitrião pode se sentir obrigado a lhe oferecer algo se vc ficar admirando muito)mas um belo dia no meio da conversa ele falou q tinha um presente pra mim…e eu aceitei, eu sou louca por perfumes, mas nunca falei isso pra ele… mas depois fiquei pensando como seria o costume, se eu tinha q retribuir, ou sei lá… detalhe, nós nunca nos vimos, td isso foi pela internet, ele mandou o perfume por um amigo em comum q nos apresentou. Isso é um símbolo de amizade e eu não preciso retribuir? Posso retribuir, ou pega mal uma mulher sair presenteando os outros assim por lá? Ou eu tenho q mandar pra ontem algo pra ele?

    DESDE JÁ AGRADEÇO MUITO MUITO MUITOOOOOOOO MESMO!!!

  10. Lindo, Bárbara!!!
    A casa da nossa vó…
    De todos esses momentos só nos restarão lembranças…seja essas boas ou ruins.
    Nossos momentos foram maravilhosos. Lembra: _Não sou cachorro!
    Ah, doce velhinha!
    O Tio do churrasco!
    Vô Mané!
    Tudo se acaba e a casa por sua vez tb…tudo por falta de união!
    Mas Deus sabe de tudo!
    Beijos (te adoro _ saudades)
    Susie e tia Sandra (pq nós ainda estamos aqui)

  11. querida me identifico com essa historia minhas avós eram totalmente de difente uma da outra mas me lembro de cada uma delas a mãe do meu pai era carinhosa adorava fazer comidas gostosas. ja a da minha mãe era mais briguenta por causa dela houver muitas brigas em familias até hoje depois de morta continua pela casa em que ela morava.
    mas teve muitos momentos de carinho das duas .

  12. Iris Bacar /

    Minhas duas avós foram especiais, mas a mãe do meu pai fez mais parte da minha vida, pois morava com meu pais quando eu e os meus irmãos nascemos. Eu comecei a andar aos 3 anos de idade (então nem preciso dizer que ela era meu maior meio de locomoção kkkkkk). Mas ao mudarmos de cidade ela preferiu ficar morando com uma filha, mas nunca deixou de passar longas temporadas conosco.
    Minha avó ficou viúva aos 40 anos com 12 filhos para criar, nunca casou de novo. Criou todos na labuta da roça com enxada, com a ajuda dos dois filhos mais velhos. depois aprendeu a costurar e passou a fazer roupas masculinas, fazia um paletó, camisa e calça social como ninguem.
    Era uma mulher forte, teve que ser autoritaria, mas com douçura, pois não havia entre seus 12 filhos, 157 netos, 200 bisnetos e 10 tataranetos e centenas de sobrinhos, fora os”aderentes” que não a amassem. Todos os anos, no mes de junho, durante a “festa de são joão” a familia se encontrava para festejar o dia das viúvas, era perfeito, a cada ano era mais caras novas, nascidas através de gerações a partir de maravilhosa e insequecivel mulher. E a festa de seus 100 anos foi muito muito, muito, muito boaaaa!!!
    Então é certo falar que ela nunca teve uma casa depois de viúva, pois morou com o meu pai ou minha tia durante toda a vida, mas ao falecer aos 102 anos de idade, LÚCIDA, tinha todo o seu funeral pago, pois nunca deixou de pagar uma conta e sempre dizia que essa conta ela também que iria pagar. Somos no geral uma família unida, mas cheias de percalços como em qualquer outra.E ela deixou apenas, amor, ensinamentos e moralidade como herança!
    Ela viu todos morrendo aos poucos, pais, marido, irmãos, tios,primos (só viu uma filha falecer, e ainda criou mais esses 2 netos q ela deixou)….e costumava dizer que Deus tinha esquecido dela, ouvir aqui lo deixava triste porque sabia que qualquer hora Allah levaria ela. E um dia levou, até hoje choro a saudade de sua presença.
    Bem, como sempre me alonguei nos meus posts, mas sou assim mesmo fazer o que né, coisa de baiana, fala demais!!! rsrs

    Allah Ma’ak e um ótimo fim de semana para todos!

    Beijos!

    PS. MInha outra avó,já teve uma vida mais calma com marido bom, e foram cuidadosos em dividir o que tinham em vida. Convivi bastante também com ela, que era a pessoa MAIS DOCE da face da terra. Além de uma doceira de mão cheia, ohhh sinto até hoje o gosto do seu pudim…
    Saudades imensas dela também.
    Sempre amarei as duas vò Maria e vozinha Rosa!

  13. Oi minha querida Irmã
    Mana, famílias sao tão iguais em todo lugar né?
    A familia da minha mãe, onde eu ainda tenho minha avó,minha avozinha que esse ano,se Deus quiser completará 90 anos, é assim igual a sua.
    Minha avó eu tenho todas as melhores e mais doces lembranças,eu n tive avó paterna, q morreu qdo minha mãe e meu pai se conheceram, e então minha única avó.
    Lembro de minhas férias na fazenda com a minha avó que chama-se Deolinda, e ouvíamos rádio de ondas OM pq lá não tinha energia, e o rádio transglobe nos levava pra todos os países do mundo, em especial ouvíamos rádios do paraguai, bolívia e isso era até que a vela se acabasse ou a gente adormecesse.
    Também acompanhava a minha avó o dia inteiro, deixava de brincar com qualquer prima ou primo pra ficar em volta dela.
    Ano passado ela me deu um susto, teve uma arritmia e fui correndo pra Campo Grande e pude vê-la no CTI muito rapidamente.
    Falamos sempre ao telefone e espero antes de ir ai em Sampa passar em Campo Grande e vê-la.
    Ela já sabe do meu casamento e disse pro meu irmão que o Ali é o homem da minha vida, muito linda minha avó né?
    meu carinho pra vc minha maninha,por compartilhar suas lembranças comigo e com os leitores do Blog.
    Assalamu Aleikum

  14. que lindo e que triste. Lembranças são preciosidades que nada nos tira se estão guardadas no coração. Elas são mais importantes que as coisas tristes. Guarde apenas o que for bom, pois tudo tem seu tempo. A renovação chega para todos, e é uma pena que nem sempre dá para tornar melhor. Beijos e tudo de bom.

  15. Aiii… deu uma dorzinha no coraçao!! Ah deu!
    Lindo post.
    Boa semana pra vc.
    Bjos

  16. hahahaha.
    Achei q a idéia de comprar gordura pra jogar na brasa e fazer muuuuuuuuuita fumaça pra “atiçar os vizinhos” era coisa do meu avô (e hoje coisa da minha mãe e agora coisa minha rsrsrsr).
    Bom lembrar disso.
    E o pensamento agora é.. “eu vou ser a próxima “minha avó” “.. eu sempre penso assim. ou tento rsrsrsr
    Amiga hoje foi dia de médico, e a suspeita é de mola hidatiforme.. meeeeeeeedo
    Lembre de mim em suas orações.

    BJS

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