Para Maria

Quando minha primeira filha nasceu nasci. Foi um arrebate de coragem. Um amor tão imenso, um transbordamento de mar quente. Eu queria olhar para ela até me tornar mãe. Ouvir sentir seu corpo pequeno contra o peito. Em silêncio. Eu e ela. Nós.Por que eu não era mãe, ainda estava me tornando e leva tempo.

Quando a primeira neta nasceu Maria reencontrou a maternidade. Assisti nos olhos dela a saudades de seus filhos pequenos. Ela os amou com tanta generosidade que me casei com um deles. O filho de Maria se tornou o pai mais inteiro que conheci. Capaz de amor, calma e constância. Maria sentia certo alivio por não precisar dedicar-se tanto ao bebê. Mas Maria sabia também o amor imenso que essa dedicação proporciona e sua delicadeza.

E minha filha era neta de Maria. A primeira neta, a primeira filha.

Eu, Maria e a pequena Luiza. Era sem jeito no começo. Eu, desnuda, ali me tornando mãe diante de Maria. Maria sem jeito, de amor derramado e saudades diante de mim.

Maria me olhou ainda menina me tornando mãe. Muitas vezes não teria feito do modo que fiz. Teve que me ver errar e acertar e escolher diferente dela. Mas meu mundo era outro com umas gerações de distancia e Maria, soube olhar. Soube me ver nascer mãe. Soube me ver, errar, escolher, aprender. Tornou-se avó tão imensa capaz de segredos, de comidas divinas e acolhimentos com sua neta. Capaz de ensinar com linhas e agulhas a costurar, refazer.

Mas em um momento eu e Maria nos olhamos. A menina que eu era, a menina que Maria foi quando tornou-se mãe, e Maria de coração imenso soube amar minha tentativa, soube dar espaço, confiou em mim.

No começo é importante olhos de acolhimento pra que venha a força e a coragem de viver a entrega chamada maternidade.

Foi um dia duro quando entendi a capacidade de acolhimento de Maria. Um dia eu estava sozinha diante de uma escolha importante, não concordava com a orientação de um médico que atendeu a segunda neta de Maria. Me senti só e fragil com uma certeza pequena, no fundo do coração, diante de um milhão de certezas do médico.

Foi nesse dia que Maria me olhou nos olhos e me disse: “Eu apoio você, seja grande na sua escolha. Eu também escolhi, um dia e escolhi de novo por meu filho”. Nunca conseguirei agradecer Maria por esse olhar, nem por todo acolhimento que recebi e o quanto me fez sentir importante e capaz. Mas vou tentar.

Obrigada, Maria, por ser avó das minhas filhas.

Kiara Terra

É escritora (A Menina dos pais -crianças editora àtica) e contadora de histórias. Há 13 anos criou o método de narração de histórias chamado a história aberta, que tem se tornado um instrumento pedagógico abrangente tanto na formação de professores como em espaços de mediação de obras de arte museus exposições.Mãe da Luiza 8 anos e da Thereza 5. kiaraterra.blogspot.com

6 Comentários

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  4. Enchi os olhos de lágrimas. Lindo! Que sorte uma sogra assim, que sorte compreender a grandeza desse relacionamento e que sorte das netas por uma avó com tanto amor. Por que amar também significa calar e aceitar que o outro erre, para que possa aprender a acertar.

    Abraços

  5. Que emocionante ler um texto recheado de tanta gratidão! E como é bom se sentir acolhida… pelo menos é como eu acredito que deva ser…
    Minha “Maria” não soube me dar o espaço, não soube me dar o apoio, não soube ser generosa e entender o papel de cada uma na história… Minha “Maria” acredita q as escolhas dela é q são corretas, e ela é q sabe o q é melhor… A mim só resta entender q isso é o máximo q ela pode dar, e tentar mostrar q eu não preciso da aprovação de “Maria” pra tentar ser a melhor mãe q eu puder ser…

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