Mentiras infantis

Estive em Pelotas para ficar com minha família nas férias, estas visitas sempre são interessantes por vários motivos, mas fundamentalmente por que tenho encontros com familiares e estes sempre trazem retalhos de memórias muito interessantes.

Minha mãe resolveu contar minha entrada na escola, pois minha irmã havia acabado de nascer e eu já com 5 aninhos estava pronta para o jardim. Depois de entender que aquela “coisinha” que chorava o tempo todo e roubava minha mãe de mim iria ficar mesmo, percebi que minha rotina de filha única havia acabado mesmo. Tudo mudou!

Apesar de ter adorado toda a movimentação de comprar coisas novas e da minha primeira professora (mais tarde este relato irá virar um post), as brincadeiras na escola, os novos amigos etc…eram realmente muito bons, entendi que isso me distanciava da minha mãe, além do mais, minha irmã era do tipo que chorava o tempo todo, talvez pelo calor, pois ela nasceu em Janeiro em um verão muito quente.

Ficar longe da mãe nem era tão difícil assim, pois, na escola era muito bom, difícil mesmo era chegar em casa e continuar com pouca atenção dela por causa da pequena que precisava de um silencio monástico para dormir.

Apesar da exigência de um bebê recém nascido, minha mãe me buscava todos os dias na escola, e então, certo dia aos 5 anos me peguei tramando um plano para mudar esta situação! Estávamos quase chegando em casa quando falei:

- Mãe! Sabia que a professora me bateu com um pau deste tamanho? E abrindo os bracinhos em todo o cumprimento mostrei como era o pau.

Minha mãe parou de caminhar e abriu bem os olhos e me olhando com cara de espanto disse:

-Mas que horror! Pobrezinha da minha filhinha! Que absurdo!

Crente que tinha conseguido meu intento arrematei:

- Eu chorei e chorei, e por causa disso não quero mais ir para a escola, pois doeu muito! Acho que amanhã ela vai me bater de novo!

Na mesma hora ela parou e deu meia volta dizendo:

- Vou agora mesmo conversar com esta professora! Ninguém bate na minha filha! Vamos contar para o seu pai e chamar a policia!

É claro que ela entendeu na hora o que estava acontecendo, mas sabiamente começou um processo investigativo para saber até onde eu iria com aquela história.

Percebendo que a situação estava complicando, resolvi pensar melhor e disse que o pau era um pouquinho menor, mas minha mãe não se convenceu. Entendi que a situação ficaria muito difícil de contornar e a medida que íamos aproximando da escola o medo ia aumentando e o pau ia diminuindo, magicamente ele virou uma vara, uma régua para finalmente se transformar em um lápis.

Quando chegamos na esquina da escola, eu disse:

- Mãe! Nem precisa falar com a professora, se ela me bater com o lápis de novo eu agüento e nem vou chorar tá?

Lembro nítidamente deste momento, ela abaixou e calmamente me perguntou:

- Filha, tem certeza que isso aconteceu mesmo? A professora te bateu? Por que isso não pode acontecer meu amor!

Me senti envergonhada, pois fui pega na mentira, claro que a professora não tinha me batido, eu queria ficar em casa com ela!

Mas o melhor de tudo é que, hoje quando lembro desta situação adoro ver como minha mãe foi sábia nesta situação, pois me deu a oportunidade de voltar atrás e rever o que estava errado, tive a chance falar a verdade e isso fez toda a diferença na personalidade que se formou depois.

Aquela jovem mãe de 32 anos, sem formação acadêmica e sem a metade das informações que existem hoje sobre educação infantil utilizou apenas o melhor conselheiro para a educação, seu coração!

Se as crianças mentem? Sim elas mentem, mas vamos olhar com calma estas questões, o mundo infantil é repleto de fantasias e elas estão sempre à serviço de algum sentimento oculto, outras vezes imitam os adultos nesta mesma situação, ou seja, aprendem com eles a inventar uma história, a diferença é que para as crianças a fantasia não tem conseqüências graves, simplesmente aparecem e desaparecem. Precisam de nós para orientá-los neste sentido.

Antes de mais nada a fantasia infantil normalmente irá exercitar a criatividade que será muito útil em todos os aspectos da vida.

Ao deparar-se com uma mentira dê a chance e a oportunidade da verdade, com calma e afeto, este será um ótimo legado para seu filhote! Eu que o diga!!

Beijo

Cris

Cristina Brisolara

Cristina B.C.Brisolara, psicóloga, especialista em educação infantil e Medicina Chinesa, mãe do Victor e por alguns anos mãe de todos os aluninhos que estudaram na Anjinhos & Cia. Contato: crisbcb@terra.com.br MSN: krisbcb@hotmail.com Blog: A Vida que vi

3 Comentários

  1. Apesar de ser um assunto sério, eu ri muito na parte do "o medo ia aumentando, o pau ia diminuindo' rsrsrssr. Realmente é complicado lidar com isso, tenho dois mais velhos, Amanda de 6 anos e Jackson de 4, ela andou contando umas mentirinhas, mas passou rápido essa fase, e eram coisas bobas, como dizer que foi ela quem fez tal desenho, sendo que foi eu, outra vez pra dizer que comeu toda a comida do prato, mandou ele ir buscar um copo, e colocou a comida dela no prato dele rsrs mas eu vi….e assim foi, mas ele…nossa ta feio, ele diz coisas que eu não falei, para a vó, tia, pai, para conseguir o que quer, "a minha mãe disse pra vc me dar' "minha mãe deixou" as vezes não sei lidar com ele, as vezes eu pergunto de novo, insisto até ele fala a verdade, mas nem sempre acontece, outras eu chamo a atenção, pior é que ja aconteceu de ele falar a verdade e não acreditarem. Quero o melhor pra ele, não quero que ele cresça achando que isso é normal.

    • Oi Sibele! Você viu como somos malandrinhos quando pequenos? Você está certíssima em insistir na verdade, é bem isso a fazer mesmo, ou seja, demonstrar a importancia dele falar a verdade, abraçar como demonstração de reforço positivo e dar a oportunidade da verdade! Coração de mãe é o melhor conselheiro!!

      Beijo

      Cris.

  2. Vi no twitter de Vizinhos de Útero, e curti demais! rs

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